Para Morrer de Rir!

Literatura

Assassinatos na Academia Brasileira de LetrasA matéria de hoje é sobre um simpático apresentador e excelente escritor! Quando parei para pensar sobre o que escreveria essa semana, me vieram à cabeça diversos escritores e vários livros excelentes. Busquei lançamentos, best-sellers internacionais.

Mas não resisti quando li um trecho do livro abordado hoje, elaborado por uma pessoa pública, a qual temos um encontro diário em um programa cheio de variedades e UTILIDADES, no qual os temas são tratados de forma muito inteligente e extremamente engraçados.

O terceiro romance de Jô Soares se passa no Rio de 1924 e põe um serial killer no encalço dos seletos membros da Academia Brasileira de Letras.
Assassinatos na Academia Brasileira de Letras conta um caso de mortes que provoca risos. Detalhe: os imortais são as vítimas.

O terceiro livro de Jô em dez anos contém a mesma fórmula dos anteriores, O Xangô de Baker Street (1995) e O Homem Que Matou Getúlio Vargas (1998): pesquisa histórica, entrecho policial e boas piadas que mexem com os fatos sem tirá-los do lugar. Algo um tanto matemático que altera os fatores sem modificar o produto.

Os dois romances foram traduzidos para uma dezena de línguas; o primeiro foi lançado em 12 países e o segundo em sete. Juntos, venderam 1,3 milhão de exemplares no mundo (no Brasil, Xangô vendeu 620 mil e Getúlio 410 mil).

O livro chegou às livrarias com tiragem de 100 mil exemplares. Prometendo igual sucesso, mesmo porque, segundo Jô, fluiu com mais naturalidade que os outros. Foi escrito em cinco meses, a partir de agosto de 2004, enquanto o primeiro levou oito meses e o segundo dois anos.

Jô SoaresJô, apesar de morar em São Paulo, sempre se declarou apaixonado pelo Rio de Janeiro antigo e inclusive morou, ainda criança, com seus pais no hotel Copacabana Palace, fundado em 1923 e um dos cenários do livro. A convivência no hotel teve como resultado uma narrativa ainda mais viva e enxuta que a dos outros volumes, devido aos recursos da memória.

Segue então, um trecho do livro, que além de tudo nos ajuda a entender de maneira cômica fatos na nossa história:

“Segunda-feira, 7 de abril de 1924

PULVIS EST ET IN PULVEREM REVERTERIS

Uma chuva de gotas grossas caía sobre a cidade do Rio de Janeiro naquela tarde de céu encoberto, e relâmpagos festejavam a tempestade. Contrariando a crença de que aguaceiros aliviam o calor, os termômetros acusavam uma temperatura de trinta e nove graus. O clima não impediu que os partícipes se apresentassem a rigor para as últimas despedidas ao senador da República e emérito escritor Belizário Bezerra, no cemitério São João Batista. Havia mais gente ainda que no dia da posse. Sérgio Loreto viera de Pernambuco, e até a autoridade maior do país, o presidente Arthur Bernardes, estava lá, de cartola e sobrecasaca, prestigiando o amigo morto, apesar das preocupações com o estado de sítio, que vigorava desde o governo anterior.

Turistas ocasionais também se amontoavam em volta do túmulo, dando mostras da curiosidade mórbida que se manifesta em catástrofes e nos enterros de pessoas ilustres.

Imortais mais ansiosos já cabalavam, entre si, votos para futuros candidatos. Causava estranheza vê-los de fardão e guarda-chuva.

Outros grupelhos contavam anedotas e riam disfarçadamente. Mulheres envoltas em renda negra trocavam idéias, em voz baixa, sobre os últimos lançamentos da moda em Paris e falavam do exótico Cuir de Russie, novo perfume de Coco Chanel.

Deputados e senadores, conhecedores das tensões do momento político, dirigiam olhares para o presidente, conjecturando sobre possíveis rebeliões tenentistas, inspiradas pelos Dezoito do Forte. Enfim, como em qualquer funeral, o único silencioso era o morto.

Todos pretendiam despachar o defunto com um necrológio pujante, porém o criminalista Aloysio Varejeira foi o mais pressuroso. Quando ele puxou do bolso o panegírico, um enorme círculo abriu-se à sua volta. O inescrupuloso advogado era temido pelo seu mau hálito.

Os maledicentes imputavam-lhe o sucesso nos tribunais ao bafejo cáustico, cultivado por anos de vinho avinagrado e queijo-do-reino, que ele expelia, ameaçador, em direção aos jurados. Pura aleivosia: o talento de Varejeira era tão perigoso quanto seu bafo venéfico.”

“Só senti coragem de escrever romances quando descobri qual era meu aspecto mais forte. Obviamente, o humor. Escrevo brincando.” - Jô Soares

Um ótimo fim de semana!
Nathália Borges

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